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17 dezembro 2011

Sequestraram “o número da bola”!

Vidago_0007 by Luis Barreira
Vidago
Vidago, a photo by Luis Barreira on Flickr.

Na mercearia do Sr. Castelo vendia-se de tudo um pouco. Uma série de portas de entrada deixavam descortinar um balcão corrido, de madeira, polido pelo tempo e pelas longas conversas dos clientes. Numa das extremidades, uma vitrina ao nível da estrada e do passeio, sempre ocupada por um pachorrento e ronceiro gato, deixava antever, por detrás de uma cortina, um pequeno escritório, uma gaveta registadora, onde um ténue candeeiro recortava o perfil do gestor do acanhado comércio: o senhor Castelo. O Castelo era o típico merceeiro tradicional, de lápis aguçado atrás da orelha, mangas-de-alpaca e pança proeminente deixando, por vezes, a fralda da camisa fora das calças de carcela mal abotoada. Era uma pessoa rezingona, de arrufos, mas sem ser mal-educado. O Sr. Castelo reconhecia-se, antes de tudo, pela delicadeza das mãos toscas de tanto acarretar batatas, de mexer em cebolas, de cortar bacalhaus ou de manusear, quer o amónio, quer o Ratax E 605 forte. Reformado da Marinha, tinha montado um negócio próspero reconhecido até onde o relógio da torre da freguesia se fazia sentir (conhecido pelo o castelo). Era casado e tinha um filho, que deu continuidade ao negócio após a sua morte: foi encontrado já defunto debruçado no seu escritório, rodeado da escrita, com as cortinas entreabertas, prostrado na direcção da estrada. O seu filho, casado, mas sem descendentes, de trato mais fino, manteve o mesmo espírito da mercearia, acolheu na sua loja alguns empregados, jovens aprendizes, com um logro soldo, como se fosse extensão da escola para a vida. Vim a saber que alguns anos mais tarde, quis o destino e a ganância de um empregado, que o Castelo, filho, fosse brutalmente assassinado, no mesmo local da morte do pai.
O castelo encontrava-se abaixo do nível do passeio devido a uma nova pavimentação – em paralelepípedos - da estrada nacional, que se tornara a rua principal de Vidago. Ir à estrada era sinónimo de centro comercial. Por este motivo, os clientes, transeuntes que jornadeavam, ao depararem-se com uma perspectiva superior do castelo, descobriam todas as novidades penduradas por guitas ao tecto do estabelecimento. Partilhando esse espaço anárquico poderíamos encontrar os mais diversos artigos: os potes, as panelas, as sertãs e os respectivos testos juntos com os novelos de ráfia e a palha d'aço; as cruzetas, os esfregões de piaçaba misturados com algumas alfaias agrícolas (sacholas, enxadas, foices, seitoiras e os devidos cabos); os rolos de papel higiénico, os cabos de cebolas e os cabos de alhos, assim como, as ratoeiras e as fitas helicoidais, para matar as moscas, faziam todos parte daquele universo. Em épocas festivas, penduravam uma “banda de porco” que era cortado consoante as necessidades dos fregueses. Os peixes de bacalhau (seco) e as canastras de polvo juntamente com as pencas eram colocados à porta. Puro marketing?!
Numa altura em que a maior parte das pessoas se alimentava com pouco mais do que um cibo de pão a quantidade dos víveres dependiam da vontade da bolsa de cada cliente e os produtos eram vendidos à grama e ao quartilho. Os vícios eram contados à unidade. Eram poucos os maços de tabaco 20 20 20 (três vintes) que se vendiam por completo. As folhas de jornais usados, espetadas num prego, eram reutilizadas para fazer os embrulhos das freguesas que saíam do castelo sempre satisfeitas, enroladas de boas notícias. O papel grosso costaneiro era destinado a encomendas de alguma monta e envergadura. O bacalhau cortado às postas por um facalhão, preso ao balcão, em forma de guilhotina, que tudo cortava, era embrulhado nesse pesado papel. Neste esforço de reabilitar as memórias de infância creio ter visto este mesmo facalhão cortar sabão rosa. Ou seria sabão azul? Talvez não! O Castelo não misturava o sabão azul com o rosa!...
Percorrendo as “ameias” daquela muralha que o balcão constituía para os miúdos da minha idade deparávamo-nos, no seu centro, com uma balança desnivelada alguns gramas, ao lado da qual se amontoavam os pesos, desde o grama ao quilo passando pelos seus múltiplos. Estes pesos nem sempre aparentavam um bom estado físico, muitos dos contrapesos de chumbo encontravam-se separados do peso original apresentando uma notória deterioração fazendo com que o rendimento do Sr. Castelo fosse melhor ao fim de alguns (muitos) quilogramas vendidos.
Alguns víveres (açúcar, grão, arroz, feijão, milho, tremoço) eram retirados com um corredor comum a todos os sacos e contentores de madeira para uns cartuchos de papel grosso com riscas azuis que numa pesagem rápida os colocava na balança sem que o fiel se estabilizasse. O Castelo abafava sempre uns pequenos gramas sem que os fiéis fregueses suspeitassem. Todos os tostões eram contados. À sua beira um rol, demasiado lambido pelo contínuo manusear registava as vendas a fiado de todos os seus clientes.
Tudo aquilo tinha uma forma peculiar de apresentação que não me sai da memória. Contudo, era “o número da bola” que me fazia ir ao castelo
Pertenço àquela miudalha que tinha como primeiro desejo ter uma bola de cauchu. A minha avó Felisbela, minha professora, para me convencer a mudar de escola, para Vidago, no final da segunda classe, disse-me que o (novo) professor Etienne tinha uma bola de cauchu. Ao mesmo tempo que me angustiava a ideia de perder a protecção da avó, pinchava de alegria ao pensar na possibilidade de poder pontapear tal esférico.
Ter uma bola era sinónimo de jogar sempre; ter uma bola de cauchu era significado de ter muitos amigos. O dono da bola jogava sempre e era ele que escolhia a equipa em primeiro lugar. As nossas brincadeiras passavam inevitavelmente por jogar futebol. Eu era um “exímio futebolista”, e no castelo havia sempre uma bola de cauchu, fora de um escaparate, bem visível, tão visível, no centro de uma rifa rodeada de outros prémios – canivetes, tesouras, baralhos de cartas, saca-rolhas, aguçadeiras, lápis, chocolates, etc. Não havia dia nenhum que não nos prostrássemos junto às “ameias” do castelo a mirar aquele “sonho esférico”. Uma lata cheia de rebuçados açucarados (intragáveis) envolvidos em desejáveis “jogadores de futebol”. Estes “jogadores” faziam parte de uma colecção que colados numa caderneta, devidamente preenchida e completa, nos habilitavam à famosa bola de cauchu. Todos os prémios, assim como a caderneta, eram obtidos através de uma senha premiada contida num rebuçado. O seu aspecto mais volumoso era presságio de fortuna. Radiografávamos, num breve olhar, os rebuçados comprados, desembrulhando em primeiro lugar os mais volumosos na expectativa de sermos bafejados pela sorte. Porém, nem sempre os mais gordos continham o prémio - a senha. A duplicação de “jogadores” no mesmo rebuçado era prática corrente levando ao engodo as pobres criancinhas. Comprávamos e trocávamos muitos “jogadores” e quando não tínhamos dinheiro para comprar mais, jogávamos ao abafa para tentar aumentar a nossa colecção.
Contudo, havia sempre um “jogador” raro, tão raro que só havia um em toda a lata: era o número da bola. E esse “jogador” estava sempre colado no fundo da lata…
E quando o fundo da lata estava quase ao nosso alcance, a um pouco mais do que uns tostões, havia sempre alguém desconhecido a perpetrar um assalto ao castelo fazendo refém “o número da bola”.

***

À minha beira                 (junto a mim)
Abafar                           (roubar)
Aguçadeira                     (Afia-lápis)
Aguçar                          (afiar)
Guita                            (cordel, baraço, fio)
Carcela                         (Braguilha)
Cauchu                          (couro ordinário)
Cibo                              (Bocado de alimento)
Corredor                        (pá de cobre ou de madeira)
Cruzetas                        (cabides)
Japoneira                       (cameleira)
Jogar ao abafa                (colocávamos dois ou mais jogadores voltados para baixo e numa palmada tentávamos que eles se voltassem)
Miudalha                        (criançada, miudeza)
Penca                            (couve penca)
Pinchar                          (saltar)
Sertã                            (frigideira)
Testo                            (tampa)
Nota: estória publicada na Revista mn