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30 janeiro 2012

O golfe no divã


 O golfe está cheio de infidelidades. E a primeira infidelidade começa logo no pensamento da cara-metade quando julga que o seu amado vai divertir-se a jogar golfe. Nada mais errado, no golfe não há diversão. O Golfe não é aquele local idílico proclamado por muita gente e vendido em postais ilustrados ou em spot publicitários. Não são campos verdejantes rodeados de árvores frondosas recortadas pelo chilrear dos passarinhos. Não é o silvo do ar filtrado pelas plantas silvestres que revigora a carcaça poluída do dia-a-dia. Não são os grandes lagos onde se pode ir apreciar as carpas, ouvir o coaxar das rãs ou o grasnar dos patos. Nada disso! Não há dia nenhum em que a angústia e o desespero não se apoderem destes guardadores de sonhos arrastando o cajado pelo prado fora.
Se assistirem ao desfilar desta dispersa e desconexa procissão, eles contorcem-se em poses mais ou menos caricatas à medida que a elasticidade corporal o permite. Flagelam-se em preces constantes que só os devotos religiosos os conseguem entender. Porém, abstêm-se de comentar as figuras caricatas dos adversários porque têm presente as “confissões de amor, ridículas” feitas por Campos. Não é amor, não é ódio, é masoquismo entranhado em muitas pancadas. Tudo isto é superior ao meu controle.
A nossa relação não é o que era, estamos possuídos pela constante tentação de evocar o condicional, nesta relação bipolar. Da euforia à depressão são nanossegundos, o tempo suficiente para a caprichosa bola decidir entrar ou ir para fora de limites. Mais, mesmo quando, supostamente, o jogo corre bem, a condicional graça subsiste: se não fosse aquele “double bogey” teria feito um “score” fantástico.
Precisamos de exorcizar as suas, as nossas, pequenas mentiras tornadas verdades ao redor de outros conluios. Uma espécie de cumplicidade partilhada com um círculo restrito de amigos capazes de entender a dor de alma que nos enferma começando sempre por colocar o “se” no início da oração: se não falhasse um “putt” de dois palmosminha, nossa Senhora. Se não fosse aquela ave agoirenta crocitar no momento do meu “shot”meu Deus. Se metesse aquelas duas bolas, dadas… teria encontrado, finalmente, o “sweet point” do meu ser. Estou farto destes imponderáveis que se sucedem no golfe numa relação directamente proporcional ao “handicap”, e não há meio de escondê-lo, a não ser que pactue com uma pequena infidelidade: me conceda outra oportunidade.
Todos nós estamos recordados dos “se” de Bill Clinton ao alegar, vangloriando-se, ter quebrado, frequentemente, o resultado de 80 (pancadas). Consta, em jeito de inconfidência, que o ex-presidente depois de ter jogado com o jornalista (Don Van Natta Jr.) revelou o pigarro que lhe vai na “garganta”, depois de ter mordido os lábios de Monica Lewinsky e de ter manifestado certos trejeitos nervosamente “swingados”. O que se esqueceu de lhe dizer foi que utilizava, fora das prerrogativas presidenciais, constantes “Billigans[1]”. Negou, negou, voltou a negar e acabou admitindo a escapadela.
- Doutora, eu quero por fim a esta relação, que me consome!
O golfe é um ritual de flagelação para mentecaptos obsessivos. É uma expiação de infidelidades cometidas, fruto do acaso e do inevitável reencontro com o objecto adorado. Eu sempre lhe fui fiel. Só que, por vezes, faço uns “double bogey”…



[1] Billigans: termo evocado por Don Van Natta Jr. para designar as pancadas perdoadas (Mulligans) a Bill Clinton.
Texto publicado na Golfe magazine, Dezembro, 2011.


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